   OU ISTO OU AQUILO
   
   CECLIA MEIRELES
   
   (Contra Capa)
   OU ISTO OU AQUILO  um dos mais belos e importantes livros de poesia para criana, nascida da extrema sensibilidade de Ceclia Meireles.
   Os poemas falam dos sonhos e fantasias que povoam o mundo infantil.
   A casa da av, os jogos e brinquedos, os anjos, animais e flores ganham vida nos poemas suaves e musicais de Ceclia Meireles.
   Em 1987, a Nova Fronteira lanou uma edio de luxo, com belas ilustraes de Fernando Correia Dias, neta de Ceclia.
   Agora o livro aparece em uma nova edio destinada ao grande pblico e no menos bonita, com ilustraes de Beatriz Berman, artista plstica argentina radicada no Brasil e consagrada internacionalmente, tendo recebido, entre outros, o Prmio de Desenho da Fundao Joan Mir, de Barcelona.
   Este livro, publicado pela primeira vez em 1964, vem encantando sucessivas geraes e agrada no s s crianas, mas tambm aos jovens e adultos.
   
   (Leitura de Orelha)
   Ao ler este livro, voc vai sentir que os poemas falam, com um jeito muito especial, de coisas que voc j viu, j pensou, j sentiu, j experimentou, ou principalmente, j imaginou. As palavras de Ceclia Meireles parecem mgicas, cheias de msica e idias. O que torna o poeta diferente das outras pessoas  uma sensibilidade muito grande e um talento especial para lidar com as palavras: elas ficam mais emocionantes e agradveis de se ouvir. Na verdade, o poeta brinca com as palavras, escolhendo-as como se perguntasse a si mesmo, a todo momento: "Esta ou aquela?" O poeta as escolhe at conseguir escrever um texto diferente, bonito, interessante.
   Um bom exemplo do que  a arte da poesia est logo no primeiro poema deste livro, "Colar de Carolina". Alm de procurar rimas -- como em menina e Carolina --, repare como Ceclia Meireles escolheu palavras que no rimam, mas combinam muito bem.  o caso, por exemplo, de coral e colar que so formadas pelas mesmas letras. Em todo o poema parece que ela faz mgicas, principalmente com as consoantes, C, L, N, R, as mesmas encontradas nas palavras do ttulo, colar e Carolina.
   Juntar palavras que as pessoas normalmente no juntam para formar uma idia -- como "prece de pelcia" -- tambm faz parte da arte da poesia. Mas para o poeta, no basta apenas saber escolher bem as palavras:  preciso us-las para comunicar alguma coisa, passar uma mensagem. Quando, por exemplo, Beatriz Berman fez os desenhos deste livro, suaves como a poesia de Ceclia, ela precisou captar a mensagem de cada poema para poder fazer uma ilustrao que tambm emocionasse.
   Bem, voc mesmo vai descobrir os encantos deste livro escrito por algum que gostava de livros, histrias e palavras desde criana.
   "Quando eu ainda no sabia ler -- conta Ceclia Meireles --, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo." Como seus pais morreram muito cedo, Ceclia foi criada pela av, D. Jacinta, e pela Bab, Pedrinha. Eram elas que contavam histrias para a menina: a av falava de fatos e lendas da terra de seus antepassados -- o arquiplago dos Aores --, e Pedrinha encantava a menina representando personagens, danando e cantando, enquanto falava do Saci Perer, de Mula-sem-cabea e outras figuras do nosso folclore.
   O amor de Ceclia pela msica fez com que ela estudasse conto, violo e violino. E, por gostar tanto de livros, acabou tornando-se uma professora dedicada s crianas, que ela amou muito especialmente.
   E tudo o que ela escreveu  to bom que vem passando de gerao para gerao, e ficamos na dvida sobre o que  mais bonito: Ser isto ou ser aquilo?
   
   Sumrio
 
   Introduo - 
   Colar de Carolina - 
   Pescaria - 
   Moda da menina trombuda - 
   O cavalinho branco - 
   Jogo de Bola - 
   Tanta tinta - 
   Bolhas - 
   Leilo de jardim - 
   Rio na sombra - 
   Os carneirinhos - 
   A bailarina - 
   O mosquito escreve - 
   A lua  do Raul - 
   Sonhos da menina - 
   O menino azul - 
   As meninas - 
   Rmulo rema - 
   As duas velhinhas - 
   O ltimo andar - 
   Cano de Dulce - 
   A lngua do nhem - 
   Cantiga da bab - 
   A av do menino - 
   O vestido de Laura - 
   Enchente - 
   Roda na rua - 
   O eco - 
   Rola a chuva - 
   O menino dos FFe RR - 
   Uma palmada bem dada - 
   O tempo do temporal - 
   A flor amarela - 
   Cano da flor da pimenta - 
   Na sacada da casa - 
   O violo e o violo - 
   Procisso de pelcia - 
   Sonhos de Olga - 
   Os pescadores e suas filhas - 
   Jardim da igreja - 
   Uma flor quebrada - 
   O sonho e a fronha - 
   A folha na festa - 
   O cho e o po - 
   A gua e a gua - 
   O passarinho no sap - 
   A pombinha da mata - 
   Cantiga para adormecer Lulu - 
   Lua depois da chuva - 
   Prego do vendedor de lima - 
   Figurinhas I - 
   Figurinhas II - 
   A chcara do Chico Bolacha - 
   Cano - 
   O lagarto medroso - 
   Para ir  lua - 
   O santo no monte - 
   Ou isto ou aquilo
 
   INTRODUO
   
   Voc que vai ler este livro, no sei que idade ter. No posso prever. Seja qual for, voc ter uma surpresa, porque este  um livro mgico. Gostaria que voc imaginasse a menina Ceclia, sem pai nem me, apenas com sua av Jacinta Garcia Benevides, debruada sobre um tapete, descobrindo o mundo. Que tapete seria esse? Certamente parecido com esses que aparecem nas histrias orientais, com pssaros e flores, e muitos caminhos retorcidos onde ela imaginava o labirinto do sonho. As Solido de menina, e da ateno sobre as coisas que passam, ou pelas quais passamos, se nutriu a poeta Ceclia Meireles, que depois foi me, av e mestra. Todas estas experincias esto neste livro, que  como aquele tapete povoado de mistrios. Ceclia entendia as crianas. Transitou com leveza entre os netos que foram to simples e curiosos como vocs. Foi colhendo uma coisa ali, outra acol, um cachimbo dourado de cabelo, uma birra, at um pensamento triste, e transformou tudo em matria de vida. Mas esta Ceclia tinha um amor muito especial pela palavra. E resolveu brincar, fazer ciranda com os sons, entrelaar os fatos com rimas ingnuas, musicar o pensamento. Leia em voz alta, sinta que est cantando. Estas coisas que hoje esto na boca de todo mundo, como medida de salvao, voc pode encontrar neste livro. A paz, o amor, a solidariedade, at a solido. Tudo  bom e bonito quando a gente acredita e pensa pra cima. Ceclia tambm foi uma professora, mas sem regras fechadas. Ensinar como abrir a cortina de um palco, onde a beleza paira na ponta do p, e tudo tem razo de ser. Vocs no imaginam como era o sorriso de Ceclia. Tinha uma doura e uma tolerncia que s a boa mestra pode ter. De tal forma que nem era preciso mostrar-se carrancuda ou severa. Ela sorria e a gente se iluminava, como se houvesse um sino perdido anunciando boas ovas. Ento a gente aprendia sem muito esforo, valorizando o silncio, aprendendo a ver, a jogar com as palavras, a descobrir um sentido novo em cada imagem.  com esta artimanha da inteligncia ela ensinou coisas incrveis para crianas, como voc que possivelmente me l, e para adultos que um dia caram na malha dourada do seu fascnio. Estou falando de poesia, estudando com aplicao a forma correta de colocar este livro em suas mos, e de poder ajudar na descoberta de qualquer mnimo detalhe, desses que o respeito e o amor sempre conseguem revelar de forma nova. Tem um poema neste livro que me agrada sobremaneira. Ele se chama "O ltimo Andar", e Ceclia diz:
   
  "No ltimo andar  mais bonito:
  do ltimo andar se v o mar.
   l que eu quero morar."
   
   Hoje Ceclia mora prazerosamente no ltimo andar, e deixou em suas mos a msica perfeita de sua cano.
   
   Walmir Ayalaa
   Rio de Janeiro, 1990
 
   
  Colar de Carolina 
 
  Com seu colar de coral,
  Carolina 
  corre por entre as colunas
  da colina.
 
  O colar de Carolina
  colore o colo de cal,
  torna corada a menina.
 
  E o sol, vendo aquela cor 
  do colar de Carolina,
  pe coroas de coral
 
  nas colunas da colina.



  Pescaria
 
  Cesto de peixes no cho.
  Cheio de peixes, o mar.
  Cheiro de peixe pelo ar.
  E peixes no cho.
 
  Chora a espuma pela areia,
  na mar cheia.
 
  As mos do mar vm e vo,
  as mos do mar pela areia
  onde os peixes esto.
 
  As mos do mar vm e vo,
  em vo.
  No chegaro
  aos peixes do cho.
 
  Por isso chora, na areia,
  a espuma da mar cheia.



  Modo da Menina Trombuda
 
   a moda
  da menina muda
  da menina trombuda
  que muda de modos
  e d medo.
 
  (A menina mimada!)
 
   a moda
  da menina muda
  que muda
  de modos
  e j no  trombuda.
 
  (A menina amada!)



  O Cavalinho Branco
 
   tarde, o cavalinho branco
  est muito cansado:
 
  mas h um pedacinho do campo
  onde  sempre feriado.
 
  O cavalo sacode a crina
  loura e comprida
 
  e nas verdes ervas atira
  sua branca vida.
 
  Seu relincho estremece as razes
  e ele ensina aos ventos
 
  a alegria de sentir livres
  seus movimentos.
 
  Trabalhou todo o dia, tanto!
  desde a madrugada!
 
  Descansa entre as flores, cavalinho branco,
  de crina dourada!



  Jogo de Bola
 
  A bela bola
  rola:
  a bela bola do Raul.
 
  Bola amarela,
  a da Arabela.
 
  A do Raul,
  azul.
 
  Rola a amarela
  e pula a azul.
 
  A bola  mole,
   mole e rola.
 
  A bola  bela,
   bela e pula.
 
   bella, rola e pula,
   mole, amarela, azul.
 
  A de Raul  de Arabela,
  e a de Arabela  de Raul.



  Tanta Tinta
  
  Ah! Menina tonta,
  toda suja de tinta
  mal o sol desponta!
  
  (Sentou-se na ponte,
  muito desatenta...
  E agora se espanta:
  Quem  que a ponte pinta
  Com tanta tinta?...)
  
  A ponte aponta
  e se desaponta.
  A tontinha tenta
  limpa a tinta,
  ponto por ponto
  e pinta por pinta...
  
  Ah! A menina tonta!
  No viu a tinta da ponte!



  Bolhas
  
  Olha a bolha d'gua
  no galho!
  Olha o orvalho!
  
  Olha a bolha de vinho
  na rolha!
  Olha a bolha!
  
  Olha a bolha na mo
  Que trabalha!
  
  Olha a bolha de sabo
  na ponta da palha:
  brilha, espelha
  e se espalha.
  Olha a bolha!
  
  Olha a bolha
  que molha
  a mo do menino:
  
  A bolha da chuva da calha!



  Leilo de Jardim!
  
  Quem me compra um jardim
  com flores?
  
  borboletas de muitas
  cores,
  
  lavadeiras e
  passarinhos,
  
  ovos verde e azuis
  nos ninhos?
  
  Quem me compra este
  caracol?
  
  Quem compra um raio
  de sol?
  
  Um lagarto entre o muro
  e a hera,
  
  Uma esttua da
  Primavera?
  
  Quem me compra este
  formigueiro?
  
  E este sapo, que 
  jardineiro?
  
  E a cigarra e a sua
  cano?
  
  E o grilinho dentro
  do cho?
  
  (Este  o meu leilo!)



  Rio na Sombra
 
  Som
  frio.

  Rio
  sombrio.
 
  O longo som
  do rio
  frio.
 
  O frio
  bom
  do longo rio.
  To longe,
  to bom,
  to frio
  o claro som
  do rio
  sombrio!



  Os Carneirinhos
 
  Todos querem ser pastores,
  quando encontram, de manh,
  os carneirinhos,
  enroladinhos
  como carretis de l.
 
  Todos querem ser pastores
  e ter coroas de flores
  e um cajadinho na mo
  e tocar uma flautinha
  e soprar numa palhinha
  qualquer cano.
 
  Todos querem ser cantores
  quando a Estrela da Manh
  brilha s, no cu sombrio,
  e, pela margem do rio,
  vo descendo os carneirinhos
  como carretis de l...



  A bailarina
  
  Esta menina
  to pequenina
  quer ser bailarina.
  
  No conhece nem d nem r
  mas sabe ficar na ponta do p.
  
  No conhece nem mi nem f
  mas inclina o corpo para c e para l.
  
  No conhece nem l nem si,
  mas fecha os olhos e sorri.
  
  Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
  e no fica tonta bem sai do lugar.
  
  Pe no cabelo uma estrela e um vu
  e diz que caiu do cu.
  
  Esta menina
  to pequenina
  quer ser bailarina.
  
  Mas depois esquece todas as danas,
  e tambm quer dormir como as outras crianas.



  O Mosquito Escreve 
 
  O mosquito pernilongo
  trana as pernas, faz um M,
  depois, treme, treme, treme,
  faz um O bastante oblongo,
  faz um S.
 
  O mosquito sobe e desce.
  Com artes que ningum v,
  faz um Q,
  faz um U, e faz um I.
 
  Este mosquito
  esquisito
  cruza as patas, faz um T.
  E a,
  se arredonda e faz outro O,
  mais bonito.
 
  Oh!
  J no  analfabeto,
  esse inseto,
  pois sabe escrever seu nome.
 
  Mas depois vai procurar
  algum que possa picar,
  pois escrever cansa,
  no , criana?
 
  E ele est com muita fome.



  A Lua  do Raul
 
  Raio de lua.
  Luar.
  Luar do ar
  azul.
 
  Roda da lua.
  Aro da roda
  na tua
  rua,
  Raul!
 
  Roda o luar
  na rua
  toda azul.
 
  Roda o aro da lua.
 
  Raul,
  a lua  tua,
  a lua de tua rua!
 
  A lua do aro azul!



  Sonhos da Menina
 
  A flor com que a menina sonha
  est no sonho?
  ou na fronha?
 
  Sonho
  risonho:
 
  O vento sozinho
  no seu carrinho.
 
  De que tamanho
  seria o rebanho?
 
  A vizinha
  apanha
  a sombrinha
  de teia de aranha ...
 
  Na lua h um ninho
  de passarinho.
 
  A lua com que a menina sonha
   o linho do sonho
  ou a lua da fronha?



  O Menino Azul
 
  O menino quer um burrinho
  para passear.
  Um burrinho manso,
  que no corra nem pule,
  mas que saiba conversar.
 
  O menino quer um burrinho
  que saiba dizer
  o nome dos rios,
  das montanhas, das flores,
  - de tudo o que aparecer.
 
  O menino quer um burrinho
  que saiba inventar histrias bonitas
  com pessoas e bichos
  e com barquinhos no mar. 
  
  E os dois sairo pelo mundo
  que  como um jardim
  apenas mais largo
  e talvez mais comprido
  e que no tenha fim.
 
  (Quem souber de um burrinho desses,
  pode escrever
  para a Ruas das Casas,
  Nmero das Portas,
  ao Menino Azul que no sabe ler.)



  As Meninas
 
  Arabel
abria a janela.
 
  Carolina
  erguia a cortina.
 
  E Maria
  olhava e sorria:
  "Bom dia!"
 
  Arabela
  foi sempre a mais bela.
 
  Carolina,
  a mais sbia menina.
  
  E Maria
  apenas sorria:
  "Bom dia!
 
  Pensaremos em cada menina
  que vivia naquela janela;
  uma que se chamava Arabela,
  outra que se chamou Carolina.
 
  Mas a nossa profunda saudade
   Maria, Maria, Maria,
  que dizia com voz de amizade:
  "Bom dia!"



  Rmulo Remo
 
  Rmulo rema no rio.
 
  A rom dorme no ramo,
  a rom rubra. (E o cu.)
 
  O remo abre o rio.
  O rio murmura.
 
  A rom rubra dorme
  cheia de rubis. (E o cu.)
 
  Rmulo rema no rio.
 
  Abre-se a rom.
  Abre-se a manh.
 
  Rolam rubis rubros do cu.
  
  No rio,
  Rmulo rema.



  As duas velhinhas
  
  Duas velhinhas muito bonitas,
  Mariana e Marina,
  esto sentadas na varanda:
  Marina e Mariana.
  
  Elas usam batas de fitas,
  Mariana e Marina,
  e penteados de tranas:
  Marina e Mariana.
  
  Tomam chocolate, as velhinhas,
  Mariana e Marina,
  em xcaras de porcelana:
  Marina e Mariana.
  
  Uma diz: "Como a tarde  linda,
  no  Marina?"
  A outra diz: "Como as ondas danam,
  no , Mariana?
  
  "Ontem, eu era pequenina",
  diz Marina.
  "Ontem, ns ramos crianas",
  diz Mariana.
  
  E levam  boca as xicrinhas,
  Mariana e Marina,
  as xicrinhas de porcelana:
  Marina e Mariana.
  
  Tomam chocolate, as velhinhas,
  Mariana e Marina.
  E falam de suas lembranas,
  Marina e Mariana.



  O ltimo andar
  
  No ltimo andar  mais bonito:
  do ltimo andar se v o mar.
   l que eu quero morar.
  
  O ltimo andar  muito longe:
  custa-se muito a chegar.
  Mas  l que eu quero morar.
  
  Todo o cu fica a noite inteira
  sobre o ltimo andar.
   l que eu quero morar.
  
  Quando faz lua, no terrao
  fica todo o luar.
   l que eu quero morar.
  
  Os passarinhos l se escondem,
  para ningum os maltratar:
  no ltimo andar.
  
  De l se avista o mundo inteiro:
  tudo parece perto, no ar.
   l que eu quero morar:
  
  no ltimo andar.



  Cano de Dulce
  
  Dulce, doce Dulce,
  menina do campo,
  de olhos verdes de gua
  de gua e pirilampo.
  
  Doce Dulce, doce
  dcil, estendendo
  pelo sol lenis
  entre anil e vento.
  
  Dcil, doce Dulce
  de face vermelha,
  doce rosa airosa
  a fugir da abelha
  
  da abelha, de vespas
  e besouros tontos
  pelo arroio de ouro
  de seixos redondos...



  A lngua do nhem
  
  Havia uma velhinha
  que andava aborrecida
  pois dava a sua vida
  para falar com algum.
  
  E estava sempre em casa
  a boa da velhinha,
  resmungando sozinha:
  
  nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
  
  O gato que dormia
  no canto da cozinha
  escutando a velhinha,
  principiou tambm
 
  a miar nessa lngua
  e se ela resmungava,
  o gatinho a acompanhava:
  
  nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
  
  Depois veio o cachorro
  da casa da vizinha,
  pato, cabra e galinha,
  de c, de l, de alm,
  
  e todos aprenderam
  a falar noite e dia
  naquela melodia
    
  nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
  
  De modo que a velhinha
  que muito padecia
  por no ter companhia
  nem, falar com ningum,
  
  ficou toda contente,
  pois mal a boca abria
  tudo lhe respondia:
  
   nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...



  Cantiga da bab
  
  Eu queria pentear o menino
  como os anjinhos de caracis.
  Mas ele quer cortar o cabelo,
  porque  pescador e precisa de anzis.
  
  Eu queria calar o menino
  com umas botinhas de cetim.
  Mas ele diz que agora  sapinho
  e mora nas guas do jardim.
  
  Eu queria dar ao menino
  umas asinhas de arame e algodo.
  Mas ele diz que no pode ser anjo,
  pois todos j sabem que ele  ndio e leo.
  
  (Este menino est sempre brincando,
  dizendo-me coisas assim.
  Mas eu bem sei que ele  um anjo escondido,
  um anjo que troa de mim.)



  A av do menino
  
  A av
  vive s.
  Na ca da av
  o galo lir
  faz "cocoroc!"
  A av bate po-de-l
  e anda um vento-t-o-t
  na cortina de fil.
  
  A av
  vive s.
  Mas se o neto menin
  mas se o neto Ricard
  mas se o neto travess
  vai  casa da av,
  os dois jogam domin.



  O vestido de Laura
  
  O vestido de Laura,
   de trs babados,
  todos bordados.
  
  O primeiro, todinho,
  todinho de flores
  de muitas cores.
  
  No segundo, apenas
  borboletas voando,
  num fino bando.
  
  O terceiro, estrelas,
  estrelas de renda
  -- talvez de lenda...
  
  O vestido de Laura
  vamos ver agora,
  sem mais demora!
  
  Que as estrelas passam,
  borboletas, flores
  perdem suas cores.
  
  Se no formos depressa,
  acabou-se o vestido
  todo bordado e florido!



  Enchente
  
  Chama o Alexandre!
  Chama!
  
  Olha a chuva que chega!
   a enchente.
  Olha o cho que foge com a chuva...
  
  Olha a chuva que encharca a gente.
  Pe a chave na fechadura.
  Fecha a porta por causa da chuva,
  olha a rua como se enche!
  
  Enquanto chove, bota a chaleira
  no fogo: olha a chama! Olha a chispa!
  Olha a chuva nos feixes de lenha!
  
  Vamos tomar ch, pois a chuva
   tanta que nem de galocha
  se pode andar na rua cheia!
 
  Chama o Alexandre!
  Chama!



  Roda na rua
  
  Roda na rua
  a roda do carro.
  Roda na rua a roda das danas.
  A roda na rua
  rodava no barro.
  Na roda da rua
  rodavam crianas.
  O carro, na rua.



  O eco
  
  O menino pergunta ao eco
  onde  que ele se esconde.
  Mas o eco s responde: "Onde? Onde?"
  
  O menino tambm lhe pede:
  "Eco, vem passear comigo!"
  
  Mas no sabe se o eco  amigo
  ou inimigo.
  
  Pois s lhe ouve dizer:
  "Migo!"



  Rola a chuva
  
  O frio arrepia
  a moa arredia.
  
  Arre
  que arrelia!
  
  Na rua rola a roda...
  Arreda!
  A rola arrulha na torre.
  
  A chuva sussurra.
  
  Rola a chuva
  rega a terra
  rega o rio
  rega a rua.
  
  E na rua a roda rola.



  O menino dos FF e RR
  
  O menino dos ff e rr
  
   o Orfeu Orofilo Ferreira:
  
  Ai com tantos rr, no erres!



  Uma palmada bem dada
  
   a menina manhosa
  que no gosta da rosa,
  
  que no quer a borboleta
  porque  amarela e preta,
  
  que no quer ma nem pra
  porque tem gosto de cera,
  
  que no toma leite
  porque lhe parece azeite,
  
  que mingau no toma
  porque  mesmo goma,
  
  que no almoa nem janta
  porque cansa a garganta,
  
  que tem medo do gato
  e tambm do rato,
  
  e tambm do co
  e tambm do ladro,
  
  que no cala meia
  porque dentro tem areia,
  
  que no toma banho frio
  porque sente arrepio,
  
  que no quer banho quente
  porque calor sente,
  
  que a unha no corta
  porque sempre fica torta,
  
  que no escova os dentes
  porque ficam dormentes,
 
  que no quer dormir cedo
  porque sente imenso medo;
  
  que tambm tarde no dorme
  porque sente um medo enorme,
  
  que no quer festa nem beijo,
  nem doce nem queijo...
  
   menina levada,
  quer uma palmada?
  
  Uma palmada bem dada
  para quem no quer nada!



  O tempo do temporal
  
  O tempo
  do temporal.
  O tempo ao tempo
  ao ar
  e ao p
  do temporal.
  E o doente ao p do templo.
  E o temporal no poente.
  E o p no doente.
  
  O tempo do doente.
  
  O ar, o p do poente.
  O temporal do tempo.



  A flor amarela
  
  Olha
  a janela
  da bela
  Arabela.
  
  Que flor
   aquela
  que Arabela
  molha?
  
   uma flor amarela.



  Cano da flor da pimenta
  
  A flor da pimenta  uma pequena estrela,
  fina e branca,
  a flor da pimenta.
  
  Frutinhas de fogo vm depois da festa
  das estrelas.
  Frutinhas de fogo.
  
  Uns coraezinhos roxas, ureos, rubras,
  muito ardentes.
  Uns coraezinhos.
  
  E as pequenas flores to sem firmamento
  jazem longe.
  As pequenas flores...
  
  Mudaram-se em farpas, sementes de fogo
  to pungentes!
  Mudaram-se em farpas.
  
  Novas se abriro,
  leves,
  brancas,
  puras,
  deste fogo,
  muitas estrelinhas...



  Na sacada da casa
  
  Na
  sacada
  a saca
  da caada.
  Na sacada da casa.
  E a casada
  na calada.
  
  Quem se casa
  de casaca?
  
  Na sacada da casa
  a saca.
  Na saca, a asa.
  Asa e ala.
  A saca da caa.
  
  Quem se ala
  da sacada
  para a calada?
  A menina descala.
  A menina calada.
  
  E na calada da casa,
  a casada.



  O violo e o vilo
  
  Havia a viola da vila.
  A viola e o violo.
  
  Do vilo era a viola.
  E da Olvia o violo.
  
  O violo da Olvia dava
  vida  vila,  vila dela.
  
  O violo duvidava
  da vida, da viola e dela.
  
  No vive Olvia na vila.
  Na vila nem na viola.
  O vilo levou-lhe a vida,
  levando o violo dela.
  
  No vale, a vila de Olvia
  vela a vida
  no seu violo vivida
  e por um vilo levada.
  
  Vida de Olvia -- levada
  por um vilo violento.
  Violeta violada
  pela viola do vento.



  Procisso de pelcia
  
  Aonde  que vai o praa
  
  que passa
  de pelia,
  com pressa,
  na praa?
  
  Ia pr uma compressa
  depressa
  no rei da Prssia?
  
  Mas o praa
  no sabe o preo
  para ir da praa
   Prssia.
  
  E no h Prssia
  nem praa
  nem pelia
  nem compressa
  nem praa
  nem preo
  nem pressa...
  
  H uma procisso
  que passa
  que passa na praa
  
  s com preces
  de pelcia...



  Sonho de Olga
  
  A espuma escreve
  com letras de alga
  o sonho de Olga.
  
  Olga  a menina que o cu cavalga
  em estrela breve.
  
  Olga  a menina que o cu afaga
  e o seu cavalo em luz se afoga
  e em cu se apaga.
  
  A espuma espera
  o sonho de Olga.
  
  A estrela de Olga chama-se Alfa.
  Alfa  o cavalo de estrela de Olga.
  
  Quando amanhece, Olga desperta
  e a espuma espera
  o sonho de Olga,
  
  a espuma escreve
  com letras de alga
  a cavalgada da estrela Alfa.
  
  A espuma escreve com algas na gua
  o sonho de Olga...



  Os pescadores e suas filhas
  
  Os pescadores dormiam
  cansados, ao sol, nos barcos.
  
  As filhinhas dos pescadores
  brincavam na praa, de mos dadas.
 
  As filhinhas dos pescadores
  cantavam cantigas de sol e de gua.
  
  Os pescadores sonhavam
  com seus barcos carregados.
  
  Os pescadores dormiam
  cansados de seu trabalho.
  
  As filhinhas dos pescadores
  falavam de beijos e abraos.
  
  Em sonho, os pescadores sorriam.
  As meninas cantavam to alto,
 
  que at no sonho dos pescadores
  boiavam as suas palavras.



  Jardim da igreja
  
  Dalila e Llia,
  e Jlia e Eullia
  cortavam dlias.
  
  Dalila e Llia,
  Eullia e Jlia
  cantavam dlias.
  
  Dlias e dlias
  E harpas elias...
  
  E a alada lua
  -- alta camlia?
  -- clia magnlia?



  Uma flor quebrada
  
  A raiz era escrava,
  descabelada negrinha
  que dia e noite ia e vinha
  e para a flor trabalhava.
  
  E a rvore foi to bela!
  Como um palcio. E o vento
  pediu um casamento
  a grande flor amarela.
  
  Mas a festa foi breve,
  pois era um vento to forte
  que em vez de amor trouxe morte
   airosa flor to leve.
  
  E a raiz suspirava
  com muito sentimento.
  Seu trabalho onde estava?
  Todo perdido com o vento.



  O sonho e a fronha
  
  Sonho risonho
  na fronha de linho.
  Na fronha de linho,
  a flor sem espinho.
  
  Apanho a lenha
  para o vizinho.
  
  E encontro o ninho
  de passarinho.
  
  De que tamanho
  seria o rebanho?
  
  No h quem venha
  pela montanha
  com a minha sombrinha
  de teia de aranha?
  
  Sonho o meu sonho.
  A flor sem espinho
  tambm sonha
  na fronha.
  
  Na fronha de linho.



  A folha na festa
  
  Esta flor
  no  da floresta.
  
  Esta flor  da festa,
  esta  a flor da giesta.
  
   a festa da flor
  e a flor est na festa.
  
  (E esta folha?
  Que folha  esta?)
  
  Esta folha no  da floresta.
  
  Esta folha no  da giesta.
  
  No  folha da flor.
  Mas est na festa.
  
  Na festa da flor
  na flor da giesta.



  O cho e o po
  
  O cho.
  O gro.
  O gro no cho.
  
  O po.
  O po e a mo.
  A mo no po.
  
  O po na mo.
  O po no cho?
  No.



  A gua e a gua
  
  A gua olhava a lagoa
  com vontade de beber gua.
  
  A lagoa era to larga
  que a gua olhava e passava.
  
  Bastava-lhe uma poa d'gua,
  ah! Mas s daqui a algumas lguas.
  
  E a gua a sede agentava.
  
  A gua andava agora s cegas
  de olhos vagos nas terras vagas,
  buscando gua.
  
  Grande mgoas!
  
  Pois o orvalho  uma gota exgua
  e as lagoas so muito largas.



  O passarinho do sap
  
  P tem papo
  o P tem p.
   o P que pia?
  
  (Piu!)
  
  Quem ?
  O P no pia:
  O P no .
  O P s tem papo
  e p.
  
  Ser o sapo?
  O sapo no .
  
  (Piu!)
  
   o passarinho
  que fez seu ninho
  no sap.
  
  Pio com papo.
  Pio com p.
  Piu-piu-piu:
  Passarinho.
  
  Passarinho
  no sap.



  A Pombinha da Mata
  
  Trs meninos na mata ouviram
  uma pombinha gemer.
 
  "Eu acho que ela est com fome",
  disse o primeiro,
  "e no tem nada para comer."
  
  Trs meninos na mata ouviram
  uma pombinha carpir.
 
  "Eu acho que ela ficou presa",
  disse o segundo,
  "e no sabe como fugir."
 
  Trs meninos na mata ouviram
  uma pombinha gemer.
 
  "Eu acho que ela est com saudade",
  disse o terceiro,
  "e com certeza vai morrer." 



  Cantiga para adormecer Lulu
  
  Lulu, lulu, lulu, lulu
  vou fazer uma cantiga
  para o anjinho de So Paulo
  que criava uma lombriga.
  
  A lombriga tinha uns olhos
  de rubim.
  Tinha um rabo revirado
  no fim.
  
  Tinha um focinho bicudo
  assim.
  Tinha uma dentua muito
  ruim.
    
  Lulu, lulu, lulu, lulu
  vou fazer uma cantiga
  para o anjinho de So Paulo
  que criava essa lombriga.
 
  A lombriga devorara
  seu po
  a banana, o doce, o queijo,
  o pio.
  
  A lombriga parecia
  um leo.
  
  E o anjinho andava triste
  e choro.
  
  Lulu, lulu, lulu, lulu
  Pois eu fao esta cantiga
  para o anjinho de So Paulo
  que alimentava a lombriga.
 
  A lombriga ia fiando maior
  que o anjinho de So Paulo!
  (Que horror!)
  
  Mas um dia chega um
  caador!
  Firma a sua pontaria,
  sem rumor.
  
  Lulu, lulu, lulu, lulu
  paro at minha cantiga
  sobre o anjinho de So Paulo!
  
  A espingarda faz pum pum!
  pim pim!
  O anjinho abana as asas
  assim,
  
  A lombriga salta fora
  enfim!
  (E foi correndo! E tocava
  bandolim!)



  Lua depois da chuva
  
  Olha a chuva:
  molha a luva.
  
  Cada gota de gua
  Como um bago de uva.
  
  A chuva lava a rua.
  A viva leva
  o guarda-chuva
  e a luva.
  
  Olha a chuva:
  molha a luva
  e o guarda-chuva
  da viva.
  
  Vai a chuva
  e chega a lua:
  lua de chuva.



  Prego do vendedor de lima
  
  Lima rima
  pela rama
  lima rima
  pelo aroma.
  
  O rumo  que leva o remo.
  O remo  que leva a rima.
  
  O ramo  que leva o aroma
  porm o aroma  da lima.
  
   da lima o aroma
  a aromar?
  
   da lima-lima
  lima da limeira
  do auro da lima
  o aroma de ouro
  do ar!



  Figurinhas I
  
  No claro jardim
  a menina chora
  pela borboleta
  que se foi embora.
  
  Ora, ora, ora,
  No chore tanto!
  Nossa Senhora!
  
  A menina chora
  no claro jardim
  um choro sem fim.
  
  Nem o cu azul
   bonito, agora,
  pois a borboleta
  j se foi embora.
  
  No chore tanto!
  Nossa Senhora!
  
  Que choro sem fim
  a menina chora
  no claro jardim.
  
  Ora, ora, ora!



  Figurinhas II
  
  Onde est meu quintal
  amarelo e encarnado,
  com meninos brincando
  de chicote-queimado,
  com cigarras nos troncos
  e formigas no cho,
  e muitas conchas brancas
  dentro da minha mo?
  
  E Julia e Maria
  e Amlia onde esto?
  
  Onde est meu anel
  e o banquinho quadrado
  e o sabi na mangueira
  e o gato no telhado?
  
  -- a moringa de barro,
  e o cheiro do alvo po?
  E a tua voz, Pedrina,
  sobre meu corao?
  Em que altos balanos
  se balanaro?...



  A chcara do Chico Bolacha
  
  Na chcara do Chico Bolacha
  o que se procura
  nunca se acha!
  
  Quando chove muito,
  O Chico brinca de barco,
  porque a chcara vira charco.
  
  Quando no chove nada,
  Chico trabalha com a enxada
  e logo se machuca
  e fica de mo inchada.
  
  Por isso, com Chico Bolacha,
  o que se procura
  nunca se acha.
  
  Dizem que a chcara do Chico
  s tem mesmo chuchu
  e um cachorrinho coxo
  que se chama Caxambu.
  
  Outras coisas, ningum procura,
  porque no acha.
  Coitado do Chico Bolacha!



  Cano
  
  De borco
  no barco.
  (De bruos
  no bero...)
  
  O brao  o barco.
  O barco  o bero.
  
  Abarco e abrao
  o bero
  e o barco.
  
  Com desembarao
  embarco
  e desembarco.
  
  De borco
  No bero...
  (De bruos
  no barco...)



  O lagarto medroso
  
  O lagarto parece uma folha
  verde e amarela.
  E reside entre as folhas, o tanque
  e a escada de pedra.
  De repente sai da folhagem,
  depressa, depressa
  olha o sol, mira as nuvens e corre
  por cima da pedra.
  Bebe o sol, bebe o dia parado,
  sua forma to quieta,
  no se sabe se  bicho, se  folha
  cada na pedra.
  Quando algum se aproxima,
  
  -- oh! Que sombra  aquela? --
  o lagarto logo se esconde
  entre folhas e pedra.
  
  Mas, no abrigo, levanta a cabea
  assustada e esperta:
  que gigantes so esses que passam
  pela escada de pedra?
  Assim vive, cheio de medo,
  intimidado e alerta,
  o lagarto (de que todos gostam)
  entre as folhas, o tanque e a pedra.
  
  Cuidadoso e curioso,
  o lagarto observa.
  E no v que os gigantes sorriem
  para ele, da pedra.
  Assim vive, cheio de medo,
  intimidado e alerta,
  o lagarto (de que todos gostam)
  entre as folhas, o tanque e a pedra.



  Para ir  Lua
  
  Enquanto no tm foguetes
  para ir  Lua
  os meninos deslizam de patinete
  pelas caladas da rua.
  
  Vo cegos de velocidade:
  mesmo que quebrem o nariz,
  que grande felicidade!
  Ser veloz  ser feliz.
  
  Ah! se pudessem ser anjos
  de longas asas!
  Mas so apenas marmanjos.



  O santo no monte
  
  No monte,
  o Santo
  em seu manto,
  sorria tanto!
  
  Sorria para uma fonte
  que havia no alto do monte
  e tambm porque defronte
  se via o sol no horizonte.
  
  No monte
  o Santo
  em seu manto
  chora tanto!
  
  Chora - pois no h mais fonte,
  e agora h um moro defronte
  que j no deixa do monte
  ver o sol nem o horizonte.
  
  No monte
  o Santo
  em seu manto
  chora tanto!
  
  (Duro
  muro
  escuro!)



   Ou isto ou aquilo
 
  Ou se tem chuva e no se tem sol
  ou se tem sol e no se tem chuva!
 
  Ou se cala a luva e no se pe o anel,
  ou se pe o anel e no se cala a luva!
 
  Quem sobe nos ares no fica no cho,
  quem fica no cho no sobe nos ares.
 
   uma grande pena que no se possa
  estar ao mesmo tempo em dois lugares!
 
  Ou guardo o dinheiro e no compro o doce,
  ou compro o doce e gasto o dinheiro.
 
  Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo ...
  e vivo escolhendo o dia inteiro!
 
  No sei se brinco, no sei se estudo,
  se saio correndo ou fico tranqilo.
 
  Mas no consegui entender ainda
  qual  melhor: se  isto ou aquilo.
